segunda-feira, 9 de março de 2009

Ad instar


A mulher que se via desperta no fundo do mar, quando acolhida pelo quente ardor da água nos seus pulmões, o homem que viajava só pela noite dentro, a menina que sorria tenuemente para a sua barbie, o menino que, com as mãos nos joelhos, exasperava por um pouco de ar, o velhote, cujo olhar sábio, compreendia perfeitamente o desabrochar da mais bela flor, a velhota que olhava para o espelho e não sentia o peso da idade, mas sim a bênção de uma vida, os namorados que acordavam juntos sob um flamejante pôr do sol, a viagem abria-se diante dos seus olhos, dos seus jovens e inexperientes olhos, os anciãos dialogando e conversando sobre a terra, o vento, o dia, as memórias patentes nos seus olhos, a nostalgia recíproca entre eles, a
saudade de pessoas, a saudade de vontades, a saudade de mundos, a saudade de palavras, a saudade de gestos, gestos intemporais que ecoam pelas vastas planícies do pensamento... O sonho vivo nas mãos octogenárias, é prova que nada é impossível e tudo desfalece, mas cresce, cresce, cresce até não caber dentro de nós e transcender-nos.

Todos somos diferentes, mas existimos, existimos sozinhos, divididos em metades, existimos felizes, à espera de alguém, tristes, com sonhos e sem sonhos, com amor e sem amor, mas todos agimos, todos sentimos a vida ou a morte, a felicidade ou a tristeza, a solidão, todos somos palavras num texto chamado vida.

Todos somos, simplesmente somos, com propósitos diferentes, com faces diferentes, de cores diferentes, mas todos somos, simplesmente somos.

Fotografia de Gary Cornhouse

2 comentários:

Alexandra disse...

Como costumo dizer: " Todos somos diferentes, mas todos somos iguais!"

Excelente texto que nos conduz à essência da vida. :)

Até mais, Bruce.

Daniel Silva disse...

Bruce, este texto li-o de um só fôlego. Verdadeiro e,lindo. Biografico, talvez, mas quero mais. Posso? ;)